Descubra como Trindade (GO), palco da tradicional Romaria do Divino Pai Eterno, convive com a fé de matrizes africanas e enfrenta o racismo religioso. Neste artigo investigativo, você vai conhecer dados inéditos do Censo 2022, relatos emocionantes de líderes de terreiros locais e casos concretos de intolerância. Entenda as políticas públicas, caminhos para o diálogo inter-religioso e como a cidade pode valorizar sua diversidade. Clique e fique por dentro de um panorama que poucos conhecem – e ajude a fortalecer a liberdade de culto em nossa “Capital da Fé”!
Trindade, conhecida como “Capital da Fé” por sediar anualmente a Romaria do Divino Pai Eterno, é um dos maiores centros de devoção católica do Brasil. Em um município de 120 mil habitantes (IBGE), a tradição cristã predomina: segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, 47,7% da população se declara católica, em queda de 12,5 pontos percentuais em 12 anos fonte. Em contrapartida, cresce lentamente a diversidade religiosa: os evangélicos passaram para 36,9% da população em Trindade fonte, e houve discreto aumento de práticas de matrizes africanas (Umbanda/Candomblé), de 0,04% para 0,4% fonte. Isso significa que apenas cerca de 1 em cada 250 pessoas na cidade se identifica com essas tradições afro-brasileiras fonte.

Apesar dessa pequeníssima parcela, as religiões de matriz africana (que incluem Umbanda, Candomblé, Jurema etc.) são parte da identidade religiosa do país e do estado de Goiás. A nível nacional, elas saltaram de 0,3% para 1% da população entre 2010 e 2022, totalizando cerca de 1,85 milhão de adeptos fonte. Esse crescimento reflete “ações de valorização da identidade afro-brasileira” que deram mais visibilidade a essas crenças e ajudaram a enfrentar estigmas e preconceitos fonte. Mesmo assim, nas estatísticas IBGE nota-se que muitos praticantes de matrizes africanas ainda se identificam como católicos ou espíritas, um indicativo de vínculos sincréticos e de medo de se revelar no censo fonte.
Dados de Trindade: panorama religioso local
- Católicos: 60,2% (2010) → 47,7% (2022) fonte. Mesmo em queda, ainda são maioria.
- Evangélicos: 30,4% → 36,9% fonte. Crescimento contínuo, reflexo da tendência nacional.
- Espíritas: 1,7% → 1,2% fonte. Leve recuo.
- Umbanda/Candomblé: 0,04% → 0,4% fonte. Em termos absolutos, esse aumento discreto mostra que o número de adeptos dobrou (de algumas dezenas para algumas centenas de pessoas). Ainda assim, permanece muito baixo diante da população total.
- Sem religião: 5,9% → 7,7% fonte. Pequeno aumento.
Esses dados oficiais revelam que Trindade é um município altamente católico, o que contrasta com outras cidades de Goiás e do Brasil, onde o catolicismo cai mais rapidamente. O evento da Romaria e o grande santuário do Divino Pai Eterno reforçam essa identidade católica histórica. Nesse cenário, as crenças de matriz africana são praticamente invisíveis no discurso público: poucas pessoas se declaram nessa categoria, e as casas de terreiro e os rituais associados não figuram na agenda tradicional da cidade.
Religiões de matriz africana em Goiás: presença e visibilidade
No estado de Goiás existe uma população negra e parda expressiva (pouco mais de 40%), mas isso não significa que a cultura religiosa africana seja amplamente reconhecida. As religiões de matriz africana (Umbanda, Candomblé, Xangô, Jurema, etc.) chegaram junto com os escravizados e sobreviveram em silêncio até recentemente fonte fonte. Em Goiânia e região metropolitana há dezenas de terreiros, muitos deles fundados por imigrantes nordestinos e seus descendentes no século XX fonte. Trindade fica a cerca de 30 km de Goiânia, num estado onde esses cultos já têm certa organização: existe inclusive a Federação de Umbanda e Candomblé de Goiás e um Fórum de Religiões de Matriz Africana de Goiás dedicado a fortalecer lideranças de terreiro e combater o racismo religioso em todas as regiões do estado fonte. Segundo o site do Fundo Brasil, esse Fórum promove seminários, capacitação e mobilização para enfrentar o racismo religioso e defender direitos dos povos de terreiro tanto na região metropolitana de Goiânia quanto em todo o estado fonte.
Em Trindade em particular, não há dados públicos específicos sobre o número de terreiros. Nas redes sociais da cidade existem menções a algumas tendas e centros de Umbanda, o que indica que há praticantes locais, embora em número reduzido. O censo sugere que, em 2022, cerca de 480 pessoas em Trindade se declararam umbandistas ou candomblecistas (0,4% de ~120 mil) fonte. Esse grupo convive no contexto de uma cidade majoritariamente católica e evangelizada, onde ritos e símbolos afro-brasileiros não são conhecidos da maioria. Essa visibilidade limitada aumenta a sensação de isolamento: muitas vezes os fiéis de matrizes africanas se sentem sozinhos em suas comunidades de origem, sem a maior parte da sociedade e das autoridades se darem conta de sua existência.
Racismo religioso: definição e contexto goiano
No Brasil, o conceito de racismo religioso refere-se ao preconceito motivado por crenças de matriz africana, reconhecendo que esse ódio tem raízes raciais. Em 2017, o termo ganhou força acadêmica para descrever como o desprezo às religiões afro-brasileiras decorre de um “modo de vida negro” e de estereótipos racistas fonte. Em prática, o racismo religioso se manifesta quando terreiros são atacados, terreiros e praticantes são difamados como “macumbeiros” ou “demoníacos”, e costumes são ridicularizados fonte fonte. Essa forma de intolerância é crime no Brasil – a Lei nº 9.459/97 prevê prisão para quem perturba culto alheio ou destrói objetos sagrados, e a lei antirracismo (7.716/89) também abrange discriminação religiosa fonte. Ainda assim, denúncias são raras e muitos casos não chegam à polícia.
Em Goiás, estudos e reportagens apontam que o racismo religioso contra umbanda e candomblé é forte. Relatos de pesquisadores lembram que, simultaneamente ao reconhecimento institucional dessas religiões, aumentou a pregação fundamentalista de ataques e perseguições contra elas fonte. De fato, temas como sacrifícios de animais em rituais afro foram explorados por pastores evangélicos contrários, reforçando o preconceito fonte. Em 2024, uma reportagem em Goiânia noticiou que frequentadores de um terreiro eram constantemente hostilizados por vizinhos: música alta durante giras, ameaças, até a polícia sendo chamada em seu culto, ações que os líderes qualificaram como “intolerância e racismo religioso” fonte. A coordenadora do terreiro explicou que, ao participar de seu próprio culto de branco, ouviu clientes de um bar murmurar sobre “macumbeiros” na rua fonte– um exemplo cotidiano de preconceito.
Além de incidentes locais, o aumento de denúncias a nível estadual é notável. Em 2023, foi criado em Goiás o Grupo Especializado de Atendimento à Vítima de Crimes Raciais e de Delitos de Intolerância (Geacri), que lida também com casos de intolerância religiosa fonte. O delegado titular relata que registra, em média, 2 a 3 depredações de terreiros por mês na região metropolitana de Goiânia, embora reconheça subnotificação fonte. No entorno do Distrito Federal (próximo a Goiás), terreiros chegaram a organizar marchas em Águas Lindas de Goiás após invasões e destruição de imagens sagradas, protestando contra a “insegurança” enfrentada e exigindo mapeamento, delegacia especializada e espaços públicos que incluam a cultura afro fonte fonte. O padrão se repete: casas de santo invadidas, oferecidos como “objetos” de intolerância, e religiosos jogados no mesmo plano de fantasmas maléficos nos discursos ofensivos fonte fonte.
O papel do poder público e das políticas
Não há registros públicos específicos de conflito religioso em Trindade, mas o governo de Goiás reconhece que combater o racismo e a intolerância religiosa faz parte da agenda de direitos humanos do estado. Em março de 2023, a Secretaria de Desenvolvimento Social realizou encontro virtual sobre “racismo, intolerância religiosa e violação de direitos”, reunindo quilombolas, representantes de povos tradicionais e gestores públicos fonte. Nesse evento se discutiu, por exemplo, a criação de políticas para igualdade racial e o enfrentamento diário das desigualdades herdadas da escravidão fonte. Destacou-se a implantação do Geacri e a capacitação de policiais civis para atender vítimas de racismo religioso fonte. São avanços importantes, já que uma das principais queixas dos terreiros é justamente a falta de resposta rápida das autoridades diante de ameaças e violência fonte fonte.
Além disso, organizações civis e de direitos humanos têm atuado em Goiás. A criação do Fórum de Religiões de Matriz Africana de Goiás (apoiado pelo Fundo Brasil) e do Movimento Agô (em Goiânia) reflete mobilização das próprias comunidades afro-religiosas. Esses grupos promovem oficinas, passeatas e acompanhamento de casos de intolerância, dando visibilidade ao problema. Em entrevistas, líderes como Iyalorisa Marileia Lasprilla (Movimento Agô) relatam episódios chocantes – por exemplo, cinco homens armados invadiram terreiros sob falsas alegações, ameaçaram fiéis e até se apresentaram como policiais sem mandado fonte fonte. Ela mesma afirmou: “Estou sofrendo intolerância e racismo religioso. Todas as vezes que temos atividade, a polícia é chamada… Meu terreiro é tratado como algo demoníaco” fonte. Em Trindade, pais de santo e zeladores de terreiros devem ser conscientes desses riscos e conhecer canais legais de denúncia (como o Disque 100 e a delegacia especializada). A Igreja Católica local, símbolo da romaria, oficialmente prega respeito inter-religioso, mas é preciso que autoridades e sociedade ouçam as vozes dissidentes e valorizem a diversidade religiosa que existe na cidade, ainda que em menor escala.
Desafios e caminhos para o diálogo
O cenário em Trindade reflete um quadro maior de silenciamento histórico das crenças africanas no Brasil: durante séculos, essas práticas eram clandestinas ou sincretizadas para escapar da repressão, o que deixou marcas profundas de ocultação e vergonha fonte fonte. Hoje, muitos cultuadores de matrizes africanas experimentam um paradoxo: por um lado há mais visibilidade nacional (festivais, março afro-brasileiro, meios de comunicação populares falando do tema); por outro, cresce a resistência de segmentos religiosos fundamentalistas no combate às suas tradições fonte fonte. Em Trindade, cada fiel de Umbanda ou Candomblé vive essa tensão diariamente, numa cidade famosa pela fé religiosa, mas onde a fé deles muitas vezes é vista como “estranha”.
Para mudar esse quadro, especialistas e militantes apontam ações simultâneas:
- Educação e conscientização. É fundamental incluir a história e a cultura afro-brasileira nos currículos escolares locais, para que crianças e jovens conheçam a riqueza das crenças de matriz africana e aprendam a respeitar todas as religiões. Oficinas e rodas de conversa promovidas por movimentos como o Fórum Afro-GO fonte são instrumentos importantes para isso.
- Aplicação da lei. Vítimas de intolerância religiosa devem ser encorajadas a denunciar. A polícia, especialmente a Delegacia de Intolerância, deve agir rápido em ataques a terreiros e em ofensas públicas. Como destacou a coordenadora do Movimento Negro Unificado de Goiás, nenhum preconceito deve passar em branco fonte– é responsabilidade do Estado defender a laicidade e punir violadores.
- Diálogo inter-religioso. Grupos ecumênicos e conselhos de promoção da igualdade religiosa podem organizar encontros entre líderes católicos, evangélicos e de matrizes africanas. Conversar sobre pontos em comum (por exemplo, respeito ao próximo e senso de comunidade) pode reduzir tensões. Alguns estados já criaram conselhos municipais de igualdade racial que incluem representação religiosa – é um modelo que Trindade poderia adotar para ouvir seus terreiros.
- Visibilidade cultural. Valorizar a cultura afro-brasileira em eventos municipais (como a festa do Divino Pai Eterno) e criar espaços públicos para manifestações culturais africanas (oficiais, artísticas e musicais) pode contrariar o estigma. Por exemplo, ter estandes na romaria explicando a Umbanda, ou convidar a comunidade afro-religiosa para atividades religiosas do calendário local, sinalizaria respeito à diversidade.
Em resumo, ao mesmo tempo que Trindade celebra sua tradição católica centenária, cresce na sociedade brasileira – e também na goiana – a consciência de que as religiões de matriz africana são legítimas expressões de fé do povo negro. Como apontam estudiosos, “tudo o que foge da visão judaico-cristã é visto como negativo” por uma mentalidade secularizada fonte. Combater esse racismo religioso passa por reconhecer que a liberdade de culto vale para todos fonte, sem exceção. Esse é um desafio atual em Trindade: não permitir que a maior festa católica da cidade ofusque ou marginalize o pequeno, mas existente, grupo de fiéis afro-brasileiros.
Fontes:
- Portal MPPE
- Mais Goiás
- Portal Informe Aqui
- Fundo Brasil
- Jornal Opção
- Brasil de Fato
- GS News
- Agencia Brasil
- Imirante
- Goiás GOV

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