Anvisa aprova injeção semestral contra o HIV com eficácia de quase 100%

A saúde pública brasileira celebra um marco histórico: a Anvisa aprovou o lenacapavir (Sunlenca), a primeira injeção semestral para prevenir o HIV com eficácia de quase 100%. Chega de comprimidos diários! Com apenas duas aplicações subcutâneas por ano, essa tecnologia inovadora rompe barreiras de adesão e estigma, oferecendo proteção invisível e duradoura. Quer entender como esse inibidor de capsídeo funciona, os resultados surpreendentes dos estudos PURPOSE e os próximos passos para a chegada no SUS? Leia o artigo completo e descubra como o Brasil está liderando a nova era da prevenção ao HIV.

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A saúde pública no Brasil acaba de atravessar um dos seus portais mais significativos na luta contra o vírus da imunodeficiência humana (HIV). No dia 12 de janeiro de 2026, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) oficializou a aprovação do lenacapavir, que será comercializado sob o nome Sunlenca, como a primeira terapia de profilaxia pré-exposição (PrEP) de ação prolongada administrada apenas duas vezes ao ano. Este medicamento, desenvolvido pela farmacêutica Gilead Sciences, representa não apenas um avanço tecnológico, mas uma mudança de paradigma na forma como a sociedade lida com a prevenção de uma das infecções mais persistentes e estigmatizadas da história moderna. A aprovação contempla a indicação para profilaxia em adultos e adolescentes com mais de 12 anos, desde que apresentem peso mínimo de 35 kg e testagem negativa obrigatória antes de cada aplicação.

Anvisa aprova injeção semestral contra o HIV com eficácia de quase 100%

A decisão brasileira alinha-se a um movimento global de inovação, seguindo aprovações prévias em agências reguladoras de elite, como a Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos e a European Medicines Agency (EMA) na Europa. Em julho de 2025, a Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia antecipado a importância desta tecnologia, recomendando o lenacapavir como uma opção adicional de PrEP e classificando-o como a ferramenta preventiva mais eficaz disponível na ausência de uma vacina aprovada. Para o Brasil, onde a estratégia de prevenção combinada tem sido um pilar do Sistema Único de Saúde (SUS), a chegada de uma injeção semestral oferece a promessa de resolver um dos maiores gargalos da saúde pública: a adesão contínua ao tratamento preventivo por parte das populações mais vulneráveis.

A ciência por trás do lenacapavir: como funciona o inibidor de capsídeo

O lenacapavir não é apenas mais um antirretroviral; ele inaugura uma classe inteiramente nova de medicamentos conhecida como inibidores de capsídeo do HIV-1. Para compreender a magnitude desta inovação, é necessário analisar o ciclo de replicação viral. O capsídeo é a estrutura proteica que protege o material genético do vírus. O lenacapavir atua de forma multifásica, interferindo em vários estágios críticos dessa proteção. Ele impede a desmontagem do capsídeo após a entrada do vírus na célula hospedeira, o que bloqueia o transporte do complexo de pré-integração para o núcleo da célula. Simultaneamente, ele interfere na montagem e maturação de novos vírus, resultando em partículas virais imaturas e incapazes de infectar outras células.

Esta ação multifásica é o que confere ao medicamento uma barreira genética elevada contra a resistência. Diferente das gerações anteriores de PrEP oral, que dependem da manutenção constante de níveis plasmáticos de drogas que inibem enzimas como a transcriptase reversa, o lenacapavir atua estruturalmente. A farmacocinética do medicamento permite que, após uma fase inicial de indução com comprimidos orais, uma única injeção subcutânea mantenha concentrações terapêuticas estáveis por 26 semanas.

A formulação química do lenacapavir pode ser descrita como altamente hidrofóbica, o que permite sua suspensão em um veículo de liberação lenta. Matematicamente, a taxa de liberação do fármaco a partir do local da injeção segue uma cinética de ordem zero em grande parte de sua duração, o que minimiza as flutuações de concentração que ocorrem no regime diário. A estabilidade molecular do composto garante que o vírus não consiga sustentar a transcrição reversa, o processo pelo qual o RNA viral é convertido em DNA para ser integrado ao genoma humano.

Resultados dos estudos PURPOSE: a eficácia que surpreendeu o mundo

A base científica para a aprovação da Anvisa repousa sobre os resultados de dois estudos clínicos de fase 3 monumentais: o PURPOSE 1 e o PURPOSE 2. Estes ensaios foram desenhados para testar o medicamento em cenários de alta pressão epidemiológica e em populações com necessidades preventivas distintas.

O estudo PURPOSE 1 foi conduzido na África do Sul e em Uganda, envolvendo mais de 5.300 mulheres cisgênero e adolescentes com idade entre 16 e 25 anos. O desenho do estudo foi randomizado e duplo-cego, comparando o lenacapavir semestral com o Truvada diário (TDF/FTC). Os resultados foram sem precedentes: não houve um único caso de infecção por HIV entre as participantes que receberam a injeção de lenacapavir.

A incidência foi de $0,00$ por 100 pessoas-ano, o que conferiu ao medicamento uma eficácia estatística de 100%. Comparativamente, o grupo que utilizou a PrEP oral registrou 55 infecções, demonstrando que, embora os comprimidos funcionem, a dificuldade de tomá-los diariamente em contextos de vulnerabilidade social compromete a proteção real.

O estudo PURPOSE 2 expandiu a investigação para homens cisgênero que fazem sexo com homens, mulheres transgênero, homens transgênero e indivíduos não binários em diversos países, incluindo o Brasil. Este ensaio incluiu 3.265 voluntários e registrou apenas dois casos de infecção entre os usuários de lenacapavir, o que resultou em uma eficácia de 96% em relação à incidência de base da população e uma superioridade de 89% em relação à PrEP oral diária.

Característica do EstudoPURPOSE 1PURPOSE 2
Público-alvoMulheres cisgênero e adolescentesHomens cis, pessoas trans e não binárias
Número de participantes> 5.3003.265
Países participantesÁfrica do Sul, UgandaBrasil, Argentina, México, Peru, EUA, Tailândia, África do Sul
Eficácia vs. Incidência de Base100%96%
Eficácia vs. PrEP Oral DiáriaSuperioridade absoluta89% superior
Casos no grupo Lenacapavir02

6

Estes dados mostram que a proteção conferida pelo lenacapavir é consistente através de diferentes identidades de gênero e práticas sexuais. A principal diferença entre os 100% de eficácia no PURPOSE 1 e os 96% no PURPOSE 2 deve-se, em parte, à amostragem e à diversidade de comportamentos e biologia das populações estudadas, mas ambos os resultados são considerados revolucionários por infectologistas brasileiros.

O cenário epidemiológico brasileiro e a necessidade de inovação

Para entender por que uma injeção semestral é tão aguardada, é preciso olhar para os números do HIV no Brasil. Apesar de o país ser um exemplo global em tratamento, o número de novas infecções não apresenta uma redução drástica em populações-chave há anos. A PrEP oral, disponível no SUS desde o final de 2017, foi um avanço, mas os dados de monitoramento indicam desafios estruturais.

Até outubro de 2024, o Brasil contava com aproximadamente 157.890 usuários ativos de PrEP.10 No entanto, a adesão média gira em torno de 70%, e cerca de 30% dos usuários descontinuam o uso nos primeiros meses. Os grupos que apresentam as maiores taxas de abandono são justamente aqueles que mais precisam da proteção: jovens entre 18 e 24 anos, pessoas negras e indivíduos com menor escolaridade.

As barreiras para o uso diário de um comprimido são variadas. Elas vão desde a rotina agitada e o esquecimento até questões mais profundas, como o estigma social. Guardar um frasco de antirretrovirais em casa ou levá-lo para uma viagem pode gerar medo de ser “descoberto” por familiares ou colegas, devido ao preconceito persistente contra o HIV. A injeção semestral atua diretamente sobre esses “gatilhos” de abandono. Com apenas duas visitas anuais ao serviço de saúde, o usuário garante proteção total de forma discreta e sem a carga mental da vigilância diária.

Superando o estigma: o impacto humanizado da injeção semestral

O depoimento de pessoas que vivem sob o risco de infecção revela que a prevenção é, muitas vezes, uma jornada solitária e cercada de medo. Relatos indicam que muitos jovens diagnosticados sentem que sua vida “acabou” no momento do teste positivo, um reflexo de décadas de desinformação. A profilaxia, nesse contexto, é uma ferramenta de saúde mental tanto quanto de saúde física.

O lenacapavir permite que a pessoa reassuma o controle sobre sua saúde sexual sem que o HIV precise ser o centro de sua atenção diária. A psicologia por trás da adesão farmacológica mostra que tratamentos de longa duração reduzem a “fadiga do paciente”. Quando o ato de se proteger é dissociado do ato sexual imediato (como no caso da camisinha) ou da rotina matinal (como no comprimido), a eficácia prática aumenta exponencialmente.

A camisinha continua sendo uma estratégia essencial, pois protege contra outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), como sífilis e gonorreia. No entanto, especialistas como Dr. Drauzio Varella e Dr. Rico Vasconcelos apontam que confiar apenas nela para o controle do HIV é uma “utopia do passado”, já que sua eficácia depende do uso perfeito em 100% das relações, o que raramente ocorre na vida real. O lenacapavir oferece uma “rede de segurança” invisível e persistente.

O caminho até o SUS: CMED, Conitec e o desafio econômico

Embora a Anvisa tenha concedido o registro, o Sunlenca não chegará às farmácias ou aos postos de saúde imediatamente. O processo brasileiro de precificação e incorporação de novas tecnologias é rigoroso e segue etapas bem definidas.

O primeiro passo após o registro é a definição do preço máximo pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED). Sem este valor oficial, o medicamento não pode ser comercializado nem pelo setor privado. Simultaneamente, o Ministério da Saúde deve avaliar a incorporação do fármaco ao SUS por meio da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec).

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A análise da Conitec levará em conta a eficácia — que é inquestionável diante dos estudos PURPOSE — mas também a custo-efetividade. O lenacapavir tem um custo elevado nos mercados internacionais, chegando a US$ 28 mil por ano nos Estados Unidos. Para o Brasil, a sustentabilidade orçamentária será o ponto central das discussões. Contudo, há sinais positivos: a Gilead Sciences anunciou acordos de licenciamento para permitir a produção de versões genéricas do lenacapavir em 120 países de renda baixa e média. Se o Brasil conseguir negociar preços diferenciados ou parcerias para produção local, o cenário de acesso universal torna-se viável.

A experiência anterior com a PrEP oral mostrou que o país consegue reduzir custos por meio de compras centralizadas. O frasco do Truvada, por exemplo, teve seu preço reduzido de US$ 25 para US$ 22 em negociações passadas, e hoje já existem opções genéricas aprovadas no mercado nacional.

Etapa de AcessoResponsávelStatus Atual (Jan/2026)
Registro SanitárioAnvisaAprovado em 12/01/2026
Definição de PreçoCMEDEm análise
Incorporação ao SUSConitec / Ministério da SaúdeAguardando submissão e análise
DisponibilizaçãoServiços de SaúdeDepende das etapas anteriores

Segurança, monitoramento e efeitos colaterais

O perfil de segurança do lenacapavir foi classificado como favorável em todos os ensaios clínicos, com a maioria dos eventos adversos sendo de natureza leve ou moderada. Por ser um medicamento injetável de liberação controlada aplicado por via subcutânea, as reações mais comuns ocorrem no local da aplicação.

Estudos indicam que os usuários podem experimentar:

  • Reações locais: Dor, inchaço, vermelhidão (eritema) e coceira (prurido) no ponto da injeção.
  • Nódulos e indurações: Pequenos caroços sob a pele podem se formar no local onde o líquido foi depositado e podem levar alguns meses para desaparecer completamente, sem representar risco à saúde.
  • Segurança sistêmica: Não foram observados danos significativos a órgãos como rins ou fígado, o que é uma vantagem sobre alguns regimes de PrEP oral que exigem monitoramento frequente da função renal.

Um ponto crítico destacado pela Anvisa é a obrigatoriedade do teste de HIV negativo antes de cada dose. Se uma pessoa for infectada e receber a injeção, existe o risco real de o vírus desenvolver resistência ao lenacapavir, o que inutilizaria essa classe de medicamento para o tratamento futuro desse indivíduo. Portanto, o protocolo de uso exige um acompanhamento médico rigoroso, transformando a injeção não apenas em um remédio, mas em um serviço de cuidado integral.

Perspectiva futura: em direção ao fim da epidemia de AIDS

A aprovação do lenacapavir é vista pela Science como a “descoberta do ano” de 2024 e um divisor de águas para 2026. A meta do UNAIDS é reduzir o número de novas infecções globais para 200 mil por ano até 2030, um patamar que permitiria dizer que a AIDS deixou de ser uma ameaça à saúde pública global. Atualmente, o mundo registra 1,3 milhão de novos casos anuais; no Brasil, esse número tem se mantido estável, o que exige medidas drásticas.

O lenacapavir injetável é a arma mais potente desenvolvida até agora para fechar a lacuna da prevenção. Ele atende quem não pode ou não quer tomar comprimidos diários e oferece uma proteção biológica que não depende da “sorte” ou da memória do usuário. Mais do que isso, ele pressiona a indústria e os governos a repensarem o acesso a tecnologias de ponta.

Enquanto o Brasil aguarda a definição de como o Sunlenca será distribuído, a comunidade médica celebra a vitória da ciência. O caminho da pesquisa que começou com o isolamento do vírus nos anos 80 chega agora a um ponto onde duas picadas por ano podem impedir a transmissão do HIV de forma quase absoluta. A jornada para um Brasil livre do HIV ganhou um novo e poderoso aliado, reafirmando o papel da inovação farmacêutica aliada às políticas de saúde pública humanizadas.

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Anny Gabriely (Informa Trindade)

Jornalista especializada em crônica, resenha e análise crítica de cultura, tecnologia e filosofia. Com formação em Jornalismo, Técnica em Informática para a Internet e especialização em Marketing Digital, alia escrita envolvente à otimização SEO para impactar e engajar. Mestre na arte de contar histórias, traduz tendências em insights profundos. Com olhar analítico e linguagem acessível, transforma conhecimento em conteúdo relevante para audiências digitais e impressas.

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